Páginas

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Erico Veríssimo: um escritor a frente de seu tempo





Fui incumbido com a graciosa tarefa de escrever uma pequena contribuição a este Blog. Agradeço, gentilmente, pelo convite realizado. Espero, do fundo de meu coração, que este simples escrito possa contribuir para o  desenvolvimento da leitura e na utilização da Biblioteca de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná. Possuo uma grande paixão, respeito e carinho por esta Biblioteca. Posso afirmar, com toda certeza, como recém-formado, que os livros da Biblioteca de Ciências Jurídicas foram essenciais para o meu incremento intelectual na Praça Santos Andrade.

Certamente, o profissional/estudante de Direito vive em um mundo paralelo. O vocabulário jurídico próprio, termos técnicos, manuais, referências doutrinárias, precedentes e decisões judiciais, enfim, tudo aquilo que nos peculiariza e acaba nos tomando precioso tempo para a leitura. A palavra é o meio de trabalho do advogado, juiz, promotor, professor e de própria avaliação do estudante de Direito, que passa 5 anos ininterruptos sendo constantemente avaliado por meio da escrita.

Por vezes, isso leva ao esquecimento da beleza da literatura. Não me refiro à literatura jurídica, ou aos ensinamentos doutrinários, mas à literatura na melhor acepção da palavra. Há uma frase de Jorge Luis Borges que sintetiza muito do aqui tento expor “Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca”.

Deste modo, decidi não escrever sobre qualquer assunto jurídico, mas sobre meu escritor favorito: Erico Verissimo.

Erico Verissimo nasceu em 1905, na cidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul. Sua terra amada é tema recorrente em seus escritos, sendo considerado como o maior escritor gaúcho de todos os tempos. O romance O Tempo e o Vento é um verdadeiro marco na narrativa histórica brasileira, pois descreve mais de 300 anos da história do Rio Grande do Sul, a partir de três livros O Continente (2 volumes), O Retrado (2 volumes) e O Arquipélago (3 volumes), publicados ao longo de 12 anos (1949-1961).

Ainda muito jovem saiu de sua cidade natal com destino a Porto Alegre, trabalhando durante alguns anos como farmacêutico. Entretanto, os negócios não foram nada bem até que, no ano de 1930, decidiu desistir de trabalhar em sua farmácia, alçando rumos como secretário da redação da Revista do Globo de Porto Alegre.

Sua ida para a Revista do Globo pode ser definida como o verdadeiro marco para a sua estabilização como escritor de renome e conhecimento nacional. Muito embora o livro Olhai os lírios do campo, publicado em 1938, o qual tentarei expor brevemente, não tenha sido a sua primeira obra, foi esta que lhe deu estabilidade como escritor. 

Conforme afirmou o autor no prefácio do livro, “só depois do aparecimento de Olhai os lírios do campo é que pude fazer profissão da literatura”.[1]

A vastidão da obra de Verissimo permitir-me-ia escrever um verdadeiro livro sobre o autor; porém, buscarei contar um pouco sobre Olhai os lírios do campo a fim de apresentar os leitores do Blog a contemporaneidade do pensamento de Verissimo.

Eugênio Fontes, a personagem principal do enredo, é um jovem médico recém-formado, casado com Eunice, uma mulher muito rica da sociedade porto-alegrense. Casado apenas pelo mero interesse financeiro, Eugênio tem um casamento infeliz, em uma época em que não se concebia o instituto do divórcio.

A primeira parte do livro relata a dura infância de Eugênio em uma Escola Anglicana americana de Porto Alegre, na qual estudava com uma bolsa de estudos, tendo em vista que seu pai era o zelador do Colégio. Crescido em meio a meninos ricos, Eugênio sempre demonstrou certo desprezo por sua família, nomeadamente na pobreza e nos problemas familiares dos Fontes, vendo os estudos como uma forma de escapatória de sua vida humilde.

De tal modo, Eugênio decidiu cursar Medicina, com o estrito intuito de encontrar um refúgio para sua vida humildade e, em seu modo de ver, vergonhosa. Ao começar o curso de Medicina, conhece uma jovem tão pobre quanto ele, Olívia, com quem viria a possuir uma relação amorosa. 

Entretanto, pelos caminhos da vida, Eugênio deixou sempre muito claro a sua pretensão de não se compromissar com Olívia, vindo a se casar por mero interesse com Eunice. Eugênio sempre tinha os pensamentos fixos em Olívia, mas sempre demonstrava irredutível quanto à sua condição financeira para o pleno desenrolar da afinidade amorosa entre ambos.

Com o passar dos anos, Eugênio perde contato com Olívia, já que esta parte para o interior do Rio Grande do Sul para trabalhar como médica. Contudo, um belo dia, Eugênio recebe uma longa carta de Olívia, relatando que, da relação amorosa destes, fora concebida Anamaria, a pequena filha criada por Olívia escondida de todos.

A carta de Olívia a Eugênio, escrita antes de sua precoce morte, faz uma bonita releitura do Sermão da Montanha de Jesus Cristo, descrito no Evangelho de Mateus, fazendo reflexões sobre os nossos propósitos de vida e objetivos da nossa existência. Além de promover este interessante debate, o escrito deixado por Olívia desperta um pouco de compaixão e humildade em Eugênio.

A partir deste acontecimento, seu casamento rompe e Eugênio busca uma nova vida, atendendo pessoas pobres na periferia de Porto Alegre, vindo a assumir, posteriormente, sua filha Anamaria.

Apresentando, em linhas gerais, o contexto da obra Olhai os lírios do campo, percebe-se que Erico Verissimo é um autor que trata de temas muito atuais, e que ainda possuem direta ressonância na sociedade em que vivemos.

A mero título de exemplo, Olhai os lírios do campo aborda questões como a traição, o divórcio, o racismo, as dificuldades impostas pela vida moderna, a rápida urbanização das cidades, a mudança de costumes, o aborto e, por incrível que possa parecer, a necessidade de um sistema público de saúde universal, como o SUS funciona atualmente. O mais surpreende é que Verissimo foi capaz de retratar todos esses assuntos em uma única obra, em plena década de 30.

Portanto, considero que a obra de Erico Verissimo é simplesmente genial, mormente Olhai os lírios do campo, constituindo uma excelente opção de leitura a todos aqueles que queiram conhecer mais sobre Erico Verissimo. 

Recomendo a leitura de Olhai os lírios do campo como uma forma de realização de primeiro contato com a vasta obra de Verissimo, que possui mais de 50 livros publicados.
Espero ter contribuído com os objetivos do presente Blog, difundindo, um pouco mais, sobre a vastidão da obra de Erico Verissimo, um homem que deve ser lembrado como um dos maiores escritores brasileiros, seja pela singularidade de sua escrita, seja pela perfeição e simplicidade para tornar o passado tema recursivo no presente.


[1] VERISSIMO, Erico. Olhai os lírios do campo. Prefácio à obra de 1966. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 17.

Nenhum comentário:

Postar um comentário